domingo, 26 de abril de 2015

Em nome da guerra

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Em nome da guerra


Em nome da guerra, o mundo perdeu-se da paz. Em nome do amor, toda bondade se faz. O soldado mais bem armado de que já se teve notícias é perfeição demais! Homem produto do meio, coração de bondade voraz. Um ser único em busca de paz! Consciente da bondade e maldade, a qual, no mundo, já não se desfaz. Homens moribundos; e a fraternidade não mais. Uma visão peculiar deste soldado, a qual em muitos jaz. A bondade é eficaz!

Era uma cidade como qualquer outra, se não fosse o odor de gente morta espalhado no ar. Adentrando aos pulmões, lá estavam os mortos da guerra. Chegou ali vestido para mais uma batalha sangrenta! Armas em punho. Foi levado até ali para matar! Na guerra, não existe o inimigo; e quem mata, mata os amigos.
   
Num treinamento do qual participou, o soldado aprendeu a atirar na perna e no braço. Mas, principalmente na perna, pois é assim que se retira dois inimigos do campo de batalha ao mesmo tempo. As táticas de guerrase aprende no quartel. E ele foi muito bem treinado! Era um dos melhores. Um verdadeiro guerreiro! Mas, as atitudes deste soldado é de homem que se liga diretamente ao céu! Olhos verdadeiros, beleza que se descortina no véu, cravados além deste mundo cruel.   

Dona Dora, mulher que teve a vida como sua mais cruel missão, sentiu, nas mãos do soldado, a sua única salvação. O soldado e a perna, eterna contradição. Por aquele homem, ela teria eterna gratidão. Uma senhora de idade já avançada, vida sofrida e amargurada. Viveu no mundo da solidão, cultivou anos de desilusão regados a pouco pão. As dificuldades da vida magrela tiraram-lhe as sandálias do pé. Criou-se com os pés literalmente ao chão.  

Rachaduras e coro duro firmaram-se aos longos dos anos naqueles pés cansados. Criou muitos filhos. O corpo sofrido já era visivelmente degradado. Restavam-lhe os pés para carregá-la por todos os lados. Teve, nesta vida, somente o que Deus lhe deu: braços e pernas para trabalhar até então. Plantar, cultivar, suor o dia inteiro em busca de pouco pão; assim é a lida daqueles que sofrem as consequências da incompreensão. Humana desilusão.

Um dia, por fatalidade desta vida, queimou uma das penas em brasas vivas de carvão. Não podia mais andar a pobre senhora da rejeição. Perderia de vez a perna, vivenciava aquela situação! Remédio para tamanha ferida, ali não tinha não! É coisa desta vida, sofrer sem opção.

O soldado trabalhava dia e noite no campo da sofreguidão, pessoas mutiladas, sangue espalhado ao chão. Crianças esfomeadas, miséria sem comparação! Eram pessoas famintas e muita desolação. Cenário de guerra sem precedentes. A arma fere e mata a inocência de muita gente. Toda ajuda era bem-vinda para aquela multidão. Deus, por onde andava, se a guerra não tinha fim?O credo já era pouco para gente que sofre assim. A fé inabalável, porém, nunca tem fim.

Treinado para matar, um homem esguio, beleza peculiar, desfilava a bondade de alimentar, sabia guerrear. Queixo ereto, postura altiva, um homem pronto para a verdadeira guerra. Posição militar sempre! Coração de invejar toda a gente. A beleza do soldado era pura e inocente, pois, como poucos, ele entendia a guerra e cuidava do bicho gente. O campeão. Curou milhares de pessoas nos campos de desolação, matou muita doença. Quando a doença era a fome, ele distribuía o pão.     

Ao ver dona Dora chegar  ao campo, comoveu-lhe o coração. O guerreiro promovia a nobre salvação! Por dias, dona Dora ia até a base militar carregada nos braços, pois já não andava mais. As dores eram imensuráveis. E a perna ferida, o seu único bem nesta vida, estava no campo da batalha para amputação. O soldado, percebendo aquilo; dedicou-se na sua missão: deixar dona Dora com seus dois pés ao chão. Não mediu esforços. Fez o que estava ao seu alcance e o que não estava também. Lavou a ferida com água e sabão, retirou dali as larvas que devoravam a perna daquela senhora, que ainda respirava, mas, já apodrecia. A carne nesta vida não tem muita valia. O que nunca envelhece é alma, cultivada  na sabedoria.  

Por dias, o curativo foi feito, não tinha remédios, mas o soldado deu seu jeito. A pobre senhora, nem clamava as dores que sentia, valia cada segundo de tratamento. O peito cheio de lamento e as rezas no intento da memória, assim a perna começou a cicatrizar. Passados muitos dias, o soldado ali a lutar, sem cessar. Ele não é homem de hesitar. Vive intenso ao próximo, sem se queixar. Deixaria com dona Dora o único bem que nesta vida lhe há: duas pernas para andar!
   
Vencida a luta! Dona Dora, agora, já podia caminhar. A guerra continuou, e antes de o soldado se ausentar, de volta para seu país de origem, dona Dora foi lhe presentear. Andando sobre duas pernas e quilômetro se podia contar.  Levou-lhe um cesto com as melhores frutas que ela esteve a cultivar. A gratidão dos homens está em qualquer lugar. Nos olhos de uma senhora cansada de esperar, em paz está agora depois de voltar a andar.

O soldado, homem honrado da vida, na lida a se banhar, caminha na multidão sem que ninguém possa lhe notar. É ele o anjo de muita gente, que nem mesmo imagina, a sua luta consciente. O soldado foi só um momento. Subiu de patente; por merecimento, virou sargento! E a guerra continua para muitos com dor e sofrimento. Lamento!

  

A escritora Luciene Rroques é formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Goiás. Pós-graduada em Biotecnologia pela Universidade Federal de Lavras Minas Gerais. Docência Superior. Comendadora da ABD-RJ. Membro da Academia de Letras e Artes de Búzios do Rio de Janeiro. Membro da Academia de Letras e Artes de Goiás. Membro do Núcleo Acadêmico de Letras e Artes de Buenos Aires - Argentina. Membro Núcleo Acadêmico de Letras e Artes de Lisboa -Portugal - Gabinete Real Português (Nº 6.907.8). Membro da Academia de Letras Música e Artes - Salvador (Bahia) cadeira 44. Membro da Academia de Letras do Brasil Araraquara, cadeira  29.

http://www.redesemfronteiras.com.br/noticia_ver.php?id=470


 Luciene Rroques



Um grande abraço a todos vocês!
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