quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Os Contos Secretos

fonte da imagem google.
 
Observação: para quem não conhece os meus textos, este é um dos meus contos. Os Contos Secretos.
E para quem não conhece a minha forma de escrever, está história é verossímil, mas não é minha, eu escrevo o que pesquiso e não minha biografia, agradeço as pessoas que confundem minha vida particular com meus escritos; e espero esclarece-las de que não fiz e não faço autobiografia. Nunca gostei do gênero, acho de pouco proveito, e se eu escrever qualquer coisa sobre minha vida pessoal, eu aviso, assim como fiz no conto: A menina o pé de goiaba e a pedra. 
Meu pai está vivo e saudável, estive com ele domingo passado.
Agradeço as preocupações, e informo, meu pai está bem.
 
Conto:

A batida do relógio 

_ Eram cinco e meia da manhã quando ele acordou. Enrolado em um cobertor macio, quente e felpudo, rolava no leito de um lado para o outro. A cama já gasta por seus diversos moradores de outras épocas,  não podia mais suportar movimentos sem rangi. A vida a influir na condição de um ser vivente. Insistentemente, a cama fazia aquele não tão desagradável barulho de cama antiga, pois ela rompia o silêncio daquele quarto. O barulho era tudo que ele tinha em sua companhia.

Abrindo os olhos, vagarosamente tateou a cama, estendeu o braço cansado e encontrou  a  mesinha de cabeceira que ali estava a sua espera. Apalpou vagarosamente a mão sobre mesma; em um tatear sem fim, mãos trêmulas que finalmente se deparou com o seu relógio de pulso. Relógio este, que: em horas anteriores lhe incomodava o magro braço e por isso fora retirado!

Com os olhos miúdos de sono, quase se fechando naquelas pálpebras caídas pelo tempo; teimava em enxergar às horas como se ainda pudesse ver os ponteiros sem o auxilio dos brilhantes portais para o mundo. Os olhos, teimosos se fecharam em protesto, não podiam mais ver tão pequenos ponteiros; e estavam ansiosos  pelo sono perdido.

Com muito custo, abriu mais uma vez os olhos expondo suas meninas à penumbra do quarto pequeno e solitário. Local decorado exclusivamente por uma cama e uma mesinha. Colocou a mão em baixo do travesseiro, procurou  por algumas vezes e finalmente encontrou seu portal brilhante. Apanhou-o. Eram seus óculos, as únicas ferramentas que lhe completava a pouca visão que restara.

Colocando-o no rosto, finalmente pode ver os ponteiros do relógio. Ponteiros que apressados giravam como se nunca fossem parar. Pensou por um instante em pará-los. Seria bom que o tempo ficasse ali naquele pequeno instante da vida. Queria ele, por mais alguns minutos que fossem, permanecer ali  na cama e segurar-se nela. Estava com sono pela noite mal dormida. Algumas azias, e muitas dores lhe acompanharam durante toda a madrugada. Oh Canto da vida! Detalhes de sorte malvada! Amor na vida pra morte! A solidão bateu forte.

Com o relógio em observação, ele finalmente concluiu ser cinco e meia da manhã.  Olhou através da janela entre aberta e pode ver o dia nascendo. Um céu vermelho que chegava devagar; uma aurora inesquecível pairava lá fora. Misteriosamente as nuvens do céu conversavam em silêncio profundo. Era mais noite do que dia! Por mais que amanhecesse, lentamente, a escuridão lhe chegava. Neste horário, como de costume, o galo cantaria; mas lamentavelmente ele não cantou!

O silêncio era majestoso, ninguém chorava por dores, ninguém transitava nos corredores. Ninguém no pátio. Tudo estava lento e rápido demais, pois os ponteiros não paravam de bater. Levantou-se vagarosamente da cama; com muita dificuldade para se apoiar nas pernas que já estavam tremulas e fragilizadas por mazelas. Caminhou a passos lentos em direção a janela, abriu-a um pouco mais, olhou por ela,  viu uma única luz acesa bem distante de seu aposento. Era a luz da recepção.

Queria o mundo! Via-se então! Coração já miúdo. A partida na mão! Observou um único vivente, tratava-se daquele que no momento entregava o jornal. A vida; quebrou o silêncio e rompeu seus ouvidos calados. O silêncio foi quebrado quando se ouviu o toque do jornal ao chão. Caiu do lado de dentro da recepção. Era o jornal do dia. Era uma vida que agia! Era um corpo que se movia. Mas o homem foi-se embora. Voltou a reinar o silêncio!

Em passos lentos continuou a observar tudo; ergueu o pescoço um pouco mais e pode ver a rua deserta do outro lado da grade do portão. A cama chamava por seu corpo, tinha que voltar; as pernas já pediam descanso. Vagarosamente caminhou até lá, deixando para traz a janela solitária que observava o pátio. Na mente, ele imaginava quais seriam as noticias do jornal naquela manhã. Queria tanto ler aquele jornal! Fora habito durante uma vida. E as mazelas atrevidas. Em uma vida sem saída. Os prazeres e a lida. Há o dia que se finda!

Já de volta aos aposentos, sentou-se  naquela cama macia pelo tempo de uso. Ouviu os gemidos da pobre cama que: lamentava, sofria,  e chorava o peso dos que se foram em tantos dias. Tentou não feri-la mais uma vez. Carinhosamente, passou a mão sobre a cama lhe acariciando num gesto fraternal, tentava consola-la. Agradeceu-lhe todos os ruídos que ajudaram a quebrar o último silêncio. Consolou a acolhedora de tantos corpos. Deitou-se coberto de paz . Ao corpo que insistente já não se faz. Pedia, descanse em paz.

Olhou para o teto e nada viu; a aurora ficou lá do lado de fora. Ali, apenas  a penumbra, nada mais! Pensou em se levantar novamente; quis um pouco mais daquele dia, quis ver aquele céu. Precisava ouvir o galo cantar! Poderia começar o dia antes de todos. Mas, a cama, era a única que poderia lhe ver, era ela, quem lhe quebrava o silêncio, apenas ela, lhe escutava a tamanha solidão. Ambos se faziam companhia.  Teve medo então! Achou por bem continuar deitado. Ficou acompanhado. Retirou os óculos, rompeu seu portal para o mundo, a penumbra aumentou.

Levando a mão totalmente cega, recolocou os óculos cuidadosamente embaixo do travesseiro. Voltou a tatear a mesinha onde depositou pela última vez seu rolex; uma bela peça, um pequenino resultado parcial de muitos anos de luta e suor; era feito de ouro dezoito cravejado de diamantes. Era a lembrança viva de uma vida feita com muito trabalho e honra. Acomodou a cabeça sobre o travesseiro, suspirou bem fundo. E o silêncio dominou aquele quarto. Olhou por mais uma vez a janela solitária. Fechou lentamente os olhos, guardou suas meninas já anciãs. Cruzou as mãos em cima do peito; facilitou assim a ocasião.  

Dormiu como nunca! O incômodo das dores despediu-se. Não escutou o choro; não viu os plantonistas trocarem o plantão. O brilho do sol não veio até seus olhos! Não ouviu o seu único filho dizer:

 _Pai, porque eu o trouxe para morar aqui? Acorde meu pai! Perdoa-me. Eu ainda preciso de você!
 
Parabéns você descobriu este conto que te conto!

Luciene Rroques
 
Um grande abraço a todos!
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