quarta-feira, 9 de julho de 2014

Entrevista com usuário de Crack

Texto publicado no dia 04-novembro, 2010.

fonte da imagem. google.

Procurei durante algum tempo entender melhor o que se passava na cabeça de pessoas próximas a mim as quais faziam uso das mais variadas drogas. Como é de conhecimento de todos a área biológica se norteia em compostos químicos e bioquímicos entre outros.

E com tanto conhecimento desde a faculdade tenho convivido com diferentes pessoas em inúmeras situações, dependentes químicas. A área comportamental sempre foi o meu grande pecado, me desculpem mas eu pequei; analisei até mesmo o comportamento (químico dependente) de meus amigos e professores.

Foi um choque a cada descoberta comportamental. Mas de lá para cá anos se passaram anos e eu só tenho a agradecer a minha inexplicável tendência em avaliar constantemente o comportamento humano e animal irracional. Isto em mim vai além da analise científica, e nato, faço sem perceber.

Preparando-me para as próximas palestras do ano de 2011 algo me chamou mais atenção que nunca. Entre inúmeras entrevista feitas com usuários de crack, está a qual postarei aqui, foi a que mais me chamou atenção. Muitas pessoas voluntariamente participaram desta pesquisa, hoje todas elas no anonimato permanecerão; por isso, aqui o nome fictício de minha entrevistada como A MULHER X.
 
 
ENTREVISTA
 
2008.
 
LUCIENE RROQUES: A quanto tempo você usa crack e quando começou? E porque começou usar e onde estava?
MULHER X: A cinco anos uso. comecei com 13anos. Comecei porque uma prima me ofereceu estávamos na porta da escola.
LUCIENE RROQUES: Mas qual o motivo real que te levou a aceitar, curiosidade suponho?
MULHER X: Não, eu aceitei porque queria ficar com um cara da escola, e ele usa, e ele tava perto de mim quando ela me ofereceu, e eu usei pra me sentir no mesmo nível dele, talvez usando ele me via, sei lá, pensei. Ele era amigo da minha prima nem falava comigo.
LUCIENE RROQUES: Você conseguiu ficar com esse cara?
MULHER X: Sim, algum tempo depois, eu insisti comecei a fumar na turma dele minha prima fazia parte da turma dele. Ele me aceitou na turma, a gente comprava dele, ele vendia a pedra pra outra cara chegado dele.
LUCIENE RROQUES: Como foi ficar com ele? Estava drogada quando ficou? Você acha que valeu valeu a pena?
MULHER X: Na primeira vez foi legal, tava só nós dois. Sim eu estava drogada e ele também. Não não valeu a pena.
LUCIENE RROQUES: Porque não valeu a pena?
MULHER X: Porque me afundei, me destruí antes mesmo de me criar. Ele e mais outros que nem sei quem são, destruíram tudo que eu sonhei. Melhor eu mesma me destruí, sou burra.
LUCIENE RROQUES: Você conseguiu o que queria? ficou com ele e mesmo assim não valeu a pena?
MULHER X: Não valeu, hoje eu to com 18 anos e hoje eu sei o que é querer de verdade, com treze anos eu não sabia, era mais burra ainda. Só que hoje eu sei o que quero, mas já é tarde, sou viciada em CRACK, não consigo parar, se eu não usar eu me sinto mal, dá mó depre, sabe, desespero total. E eu não quero parar, alias quero mais não quero, sei que não posso, preciso de mais sempre mais. É um inferno isso a Senhora não sabe o que é. Hoje para mim querer não é poder, infelizmente.
LUCIENE RROQUES: Me conte algo que fez que jamais faria, mas fez por usar CRACK. O que Fez? Roubou? matou? Brigou? O que fez?
MULHER X: Não roubei, usava o dinheiro da mesada escondido. Meu pai não sacou no começo. Não matei, mas já vi muito nego ir pra tumba pelo crack. Briguei com todos que me amavam, quando descobriram que eu era usuária tentaram me ajudar e eu briguei com todas as pessoas que nesta vida me amou. Tive professor particular, até aula de boas maneiras eu peguei, queria tocar piano, sabia um pouco, meu pai chegou a comprar o piano. Um dia algo que eu jamais faria, eu fiz por ser uma usuária de crack? Sim eu fiz eu comprei fiado crack pra pagar depois, e rolou os meses e tal, o dinheiro em casa regularam depois que descobriram. Os caras iam me matar se eu não desse a grana pra eles. E eu sabia onde tava a grana do meu pai, eu entrei lá peguei e paguei a parada e comprei mais. E pra ele não sacar eu quebrei a sala toda e o quarto e dei um tiro no meu pé. Me mutilei por CRACK. Falei que foi ladrão que entrou em casa.
LUCIENE RROQUES: Como é sua vida hoje depois do CRACK?
MULHER X: Um inferno, eu sou um problema pra todo mundo, eu tenho um filho que nem sei quem é o pai, depois da primeira vez com o cara lá que te falei, ele me passava prós amigos dele, eu nem via, sei lá eu ficava dias com eles sumida da minha casa. Minha mãe! Desculpa não quero chorar, espera. Minha mãe com tantos problemas meus não aguentou .Enfartou. Meu Deus o que eu fiz. Inferno.
LUCIENE RROQUES: Você vê alguma saída pra você? O que você mudaria se pudesse?
MULHER X: Queria ver saída, meu pai já gastou mais de vinte e cinco mil comigo. A Senhora não sabe, isso é um inferno, não sai assim. A saída pra mim? Morrer. eu já destruí minha vida mesmo. O QUE EU MUDARIA? deixa eu vê... Seria mais inteligente e nunca  teria experimentado crack pra dar uma de legal com ninguém. Fui idiota a Senhora não acha? Pode dizer. Só um otário usa crack, tanta propaganda avisando que vicia desde a primeira vez, e eu achei que comigo era diferente eu achava que podia parar quando eu quisesse. Eu pensei que podia. Eu tava errada, CRACK destrói tudo, destrói você, seus planos, seu futuro, e a vida de todos a sua volta. Saudade da minha mãe, meu filho chora querendo ela, ele pensa que ela era a mãe dele, ele chora fico sem mãe. Desculpa não quero chora. Desculpa. De nada.
 
 
Depois desta, já fiz outros levantamentos que trarei em breve para ser exposto. Lembrando que o nome das pessoas sempre serão preservados. Agradeço a todas as pessoas que colaboram comigo nas minhas pesquisas, de uma forma ou de outra, tudo me é útil, sempre. Como fruto e ramo desta e de outras pesquisas, surgiu os meus livros, Uma pedra no caminho; e o livro Quanto vale a alma.
 
Um grande abraço a todos!
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