sábado, 31 de maio de 2014

A vida é a terça parte da natureza, e viver é a mais bela entre todas as charadas!



O MATADOR DA SANFONA



Divino que nunca foi santo, homem menino que não teve pranto se tornou figura de matador andava munido de sua sanfona, sempre preparado para qualquer precisão. Viveu na década de sessenta no interior de Goiás. Era sujeito matuto, um rapaz forte e bruto. Barba afiada bigodes bem aparados, olhos acastanhados, pele branca cabelos negros como a noite. No olhar trazia consigo a desconfiança e a busca incessante de algo que ninguém podia entender. Vivia encabulado de um lado para outro montado em seu alazão. Um cavalo de bela crina que sempre se via em cima o rapaz da multidão.



Aonde ele chegava as pessoas se abaixava num gesto de cumprimento ao sultão. Ele era “o cabuloso”, o rapaz charmoso das festas de peão. Quando ele apeava do cavalo a mulherada olhava encabulada com a beleza daquele homenzarrão. Um homem de poucas palavras de gestos precisos, chapéu de couro, bota de esporas e chicote na mão. Apeava lentamente em frente à venda do Senhor Manoel, pedia um aguardente, dava a parte do santo e em único gole tomava o restante sem pranto.


Certa vez o rapaz de bigode aparado resolver mudar o rumo e ir pros lados de Rubiataba, uma cidadezinha pacata cercada por grandes matas, que fica não muito longe da capital; lá o tempo não passa a vida não fracassa e as donzelas sempre têm no andar muita graça.


Em uma de suas paradas estava na beira da calçada a morena de enorme fulgor, quando Divino avistou a donzela, a moça dali mais bela, seu coração disparou. Seu jeito desconfiado seus olhos ali parados naquela morena ficou. As pessoas iam passando a moça ia andando e Divino não conseguia se mover; queria falar com a tal moça, talvez lhe elogiar sua roupa, mas não teve coragem para dizer. A moça era tão bela que em sete léguas em roda dela não havia beleza igual.
O Matador da Sanfona naquele instante foi a lona pelo nocaute do amor. Ela morena formosa, moça toda prosa era protótipo de arco Iris em cor. Um belo rosto se via na noite ou no dia era linda aquela flor. Lábios cor de rosas, olhos verdes como folhas, cabelos negros e longos abaixo da cintura, seu corpo era só formosura da cabeça até os pés. Cintura fina cintura de menina fazia inveja a um pobre violão. Divino encabulado com aquele corpo marcado formato de um pilão. Seu coração foi as alturas seus orgulhos a sepultura ficou plebeu o rei sultão. Divino se despiu de sua coroa e ficou rindo “atoa” como um pobre bobão. Seu coração perturbado na sanfona fora expressado em todas as festas de pião, tocava com muita graça no banco de qualquer praça sentia enorme emoção, depois daquele dia nada mais valia do que seu sofrido coração.


Então criou coragem foi em busca da imagem que lhe fez descer ao chão, chegou todo arredio quis saber o nome da moça colocou em uma venda uma foto da sua prenda de devoção. O Chico dono da venda reconheceu a moça, mas não quis lhe dar um voto pela sua obsessão. Dizendo essa moça e minha filha, pertence a esta família se enxergue sanfoneiro peão.

Divino entristecido tirou riso do rosto e voltou a ser sultão. Saiu da venda chateado, mas não estava abalado com aquela decisão. Na vida tudo tem jeito a morena que morava no peito não mudou de endereço não. Divino foi até outra venda comprou a espingarda de encomenda para buscar sua morena de coração. No outro dia viu na rua passando a prenda sua, enlouqueceu o peão, desceu do cavalo no embalo, entrou na venda do Senhor Chico dizendo não me importo se sou rico a morena comigo vou levar, Seu Chico apavorado vendo Divino armado tentou negociar, não leve a Divina minha filha, pois ela é moça fina de família e contigo não pode se casar.

Divino passou a mão na cintura da moça, mirou a arma para o Chico da venda saiu andando de fasto com Divina em seus braços. Subiu em seu cavalo levando a moça no embalo o animal andou pra mais de cem. Rápido sumiu na estrada Divina de Divino acompanha foi depois encontrada com seis filhos na mão já estava casada. Foram felizes até o dia que Divina foi sepultada deixado seis filhos amados e um coração dilacerado do Matador da Sanfona das festas de peão. Divino viveu entristecido com seus seis filhos queridos e seu quebrado coração.

Um grande abraço a todos!
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