Livros Infantis

Livros meus, que escrevi já há algum tempo;  já  os publiquei com outros pseudônimos, ou ainda na forma seriada; Estes livros já participaram de divulgação, premiações e debates em vários países que falam a língua portuguesa. Naquela época eu não usava capas de livros, nem meu rosto aparecia nelas ou em qualquer outro lugar.
 
 
 

Feliz do homem que aprende o que ensina: Cora Coralina.



Livro 02.Ano 2005

O MENINO MAGRELINHO
Autora
LUCIENE RROQUES
Era uma vez Franzolino, um menino magrelinho, muito pobrezinho, sonhava se tornar um grande rei. Nasceu em uma família humilde, pobre materialmente, mas ao mesmo tempo rico, pois nasceu cercado de muito amor e carinho. Não tinha dinheiro para realizar todos os seus sonhos e se tornar um rei; não morava em um grande palácio, mas era dono de uma enorme riqueza, pois ao longo dos anos Franzolino aprendeu a amar todas as pessoas. Na medida em que crescia, tornava-se uma pessoa da qual todas as outras pessoas gostavam muito. Um menininho muito legal, inteligente, amável, solidário, educado e sempre alegre. Seus cabelos eram encaracolados, olhos pretos arregalados, nariz pequenino e achatado, pernas compridas e braços bem magrelos. Ele era lindinho como era. Se fosse diferente não seria ele o menino magrelinho.

Quando o dia amanhecia todos na casa se levantavam. Dona Felizbenta, a mamãe de Franzolino, ia logo para a cozinha fazer o café enquanto o pai de Franzolino saia de casa para comprar o pãozinho que toda a família adorava. O menino magrelinho, ainda sonolento ia até o terreiro da casa onde abria a torneira do tanque de lavar roupas para lavrar o rosto. Colocava a pasta de dente na ponta do dedo indicador e o levava a boca na tentativa de limpar os seus pequeninos dentinhos. Alguns dentes já haviam caído é Franzolino sorria com sua janelinha na boca. Aquele único dente que lhe faltava já havia despontado e lentamente tentava aparecer. Faltar um dente não era problema, pois sua mãe já havia lhe explicado que outro nasceria no lugar. E vários dentes já haviam nascido; somente aquele dente estava demorando tanto. Quando os dentes permanentes vinham apontando O menino magrelinho redobrava os cuidados com a limpeza da boca pois depois destes novos dentes outros não nasceriam mais.

Pobrezinho do menino magrelinho, o dinheiro era tão pouco que não dava para compra escova pra todo mundo, apenas seu pai e sua mãe tinham uma escova de dente para lavar as dentaduras já amareladas. Franzolino não tinha uma escova de dente para limpar seus preciosos dentinhos que doía toda noite por causa das cáries nos dois últimos dentes de leite. Franzolino enchia a bocara de água e pasta de dente bocejava aquela mistura e cuspia tudo ali no tanque mesmo. Ficou muito tempo fazendo assim para escovar os dentes.

Quando ele começou a estudar, lá na escola ganhou sua primeira escova de dente. A escova que ele ganhou era verde, muito bonita. Para o menino magrelinho aquela escova era um grande tesouro, pois ela iria livrar Franzolino de usar uma dentadura um dia. Depois que enxaguava a bocara com a água do tanque, ele voltava para dentro de casa e finalmente tomava o seu leite e comia o pão. Quando acordava pela manhã a barriguinha miúda e vazia fazia um barulho tão estranho que dava até medo de ouvir.

A casinha bem simples, onde Franzolino morava era feita de adobe e não tinha cerâmica no chão. O piso era apenas uma camada grossa de cimento e areia, igual a uma calçada. Foi o pai de Franzolino mesmo quem fez aquela humilde casinha. As paredes eram apenas rebocadas, não tinham cor alguma. O dinheiro da família era pouco e não dava para compra tinta pra pintar as paredes da casa.

Na casa de Franzolino haviam somente três cômodos. Lá se entrava e saia pela porta da cozinha. Nesta cozinha haviam cinco panelas dependuradas na parede, um caixote de madeira no canto; onde a mamãe do menino magrelinho guardava toda a comida da casa.

No começo do mês quando o pai de Franzolino recebia o salário, se encontrava dentro do caixote: um pacote de maçarão, farinha, arroz, feijão, latas de sardinha, palitos de fósforo, dois litros de óleo, uma lata de extrato de tomate, uma barra de sabão e um repelente para espantar mosquitos. Quando chegava ao final do mês o caixote guardava apenas o restante do sabão, um pouco de arroz e feijão e o repelente pra espantar as muriçocas de madrugada.

Em um canto da cozinha se via um fogão bem velho, mas muito limpinho; sem a tampa de cima e com alguns amassados, era ele que cozinhava todas as refeições da familia. Uma mesinha de madeira com as pernas já bem tortas, ficava localizada bem no centro da cozinha. Encostado em uma parede ficava um banco de madeira feito pelo pai de Franzolino. Neste banco toda a família sentava-se para almoçar de prato na mão. Bem no cantinho atrás da porta da cozinha ficava uma velha cantoneira onde Dona Felizbenta colocava o filtro cheio de uma deliciosa água, que ficava sempre fresquinha e filtrada, livre dos germes que podem causar doenças como dores de barriga.

A cozinha da casa de Franzolino era tão pequena que sua mãe, mal conseguia se virar dentro dela sem esbarrar em algum objeto. Quando ia fazer a comida Dona Felizbenta não gostava de ninguém por perto lhe atrapalhando. Os outros dois cômodos da casa, eram os quartos. Em um dos quartos dormiam o pai e a mãe de Franzolino. No outro quarto dormia o menino magrelinho e seus irmãos.

O quarto do pai e da mãe de Franzolino, também era pequeno. Tinha uma pequenina janelinha de madeira bem no cantinho, lá no alto da parede. No pouco espaço do quarto cabia uma cama de casal onde dormiam os pais de Franzolino. No canto do quarto, embaixo da pequena janela, havia uma grande caixa de papelão onde Dona Felizbenta guardava as roupas de toda a família. Dentro desta caixa estavam as poucas e pequenas calças e camisas de Franzolino. Ele tinha na verdade apenas cinco camisas, duas calças, três cuecas, dois pares de meia, uma roupa de dormir e quatro bermudas. Lá também se guardava os lençóis de cama e as toalhas de banho.
O quarto de Franzolino era maior um pouco, cabia três camas de solteiro e um caixote de madeira onde todos os filhos de Dona Felizbenta colocavam os seus materiais escolares. Uma das três camas que havia no quarto era do vovô de Franzolino que nem sempre dormia por lá, mas de vez em quando aparecia para visitar os netos e passar alguns dias. Mesmo com um quarto pequeno para tanta gente, o menino magrelinho sabia dividir o espaço com os seus cinco irmãos; Leopoldino, Bertolino, Felizbino, Dorvalino, Gordolino, e com o vovô quando ele aparecia. Franzolino aprendeu desde cedo que a família tem que ser unida, e que dentro de uma casa tem que haver compreensão e muito amor, por isso não se importava em dividir o quarto e os brinquedos com seus irmãos.

Franzolino amava muito os seus cinco irmãozinhos, e mesmo faltando espaço dentro de casa eles não brigavam pela melhor cama, ou pelo melhor brinquedo. Sabiam dividir o pouco que tinham. Quando o vovô chegava só sobravam duas camas dentro do quarto e os irmãos se organizavam na hora de dormir. Assim era garantido o espaço para todo mundo tirar aquela soneca. Franzolino por ser o menor e o mais magrinho de todos os irmãos, dormia sempre na mesma cama que Gordolino e Felizbino. Todas as noites os seis irmãos entravam em seu quarto, todos vestidos de roupinhas de dormir azuis, deitavam em suas camas e dormiam tranquilamente até o dia amanhecer.

Franzolino gostava de roupas azuis, a roupa de dormir foi presente de seu avô. Também adorava a cor azul do céu. Às vezes ele se deitava no chão de terra batida lá nos fundos do terreiro; e com os braços embaixo da cabeça olhava para o céu, e sonhava em ser um grande rei, admirado por todos. Olhando para o céu, Franzolino observava cada desenho que a nuvem formava. Tinha dias que as nuvens eram bem criativas, faziam lindos desenhos e lá no céu tudo era muito belo, todas as figuras eram bem vindas, não havia discriminação lá em cima no território de Deus tudo era perfeito e único. As nuvens desenhavam elefantes bem magrelos, girafas pequeninas, pessoas bem gordas, gatos, cachorros, dragões, pessoas bem magrinhas assim como Franzolino e até coroas de rei eram desenhadas lá no céu. Dava gosto deitar no chão do terreiro para ver todas aquelas nuvens formar desenhos belos, perfeitos lá no céu. O menino magrelinho olhando tanta figura preciosa lá no céu; sonhava acordado.

Queria muito ir até lá no céu; para ver de pertinho todas aquelas lindas nuvens azuis que formavam figuras tão lindas e diferentes. Queria pegar a coroa de nuvem e coloca-lá em sua cabeça para se tornar um grande rei. Franzolino sempre imaginava que quando crescesse poderia ver o céu bem de perto.

O brinquedo favorito do menino magrelinho era um caminhãozinho azul trazido por seu avô no dia das crianças. Quando sobrava tempo depois da escola, ele e seus irmãos iam brincar no terreiro de casa. Franzolino era sempre o primeiro a pegar o caminhãozinho e correr para o quintal. Levava o caminhão até um monte de terra que ficava do lado do portão da entrada da casa e enchia o caminhãozinho de terra para levar lá pros fundos do quintal. Com um barbante na parte da frente do caminhãozinho, saia puxando toda aquela terra até chegar próximo da cerca dos fundos do quintal, lá Franzolino descarregava toda a terra de dentro do caminhão. Puxava novamente o caminhãozinho até o portão da entrada e mais uma vez o enchia; colocava o máximo de terra que podia para levar de novo lá pros fundos do quintal.

Quando levantava bem cedinho o pãozinho com manteiga era sempre bem vindo. A fome de Franzolino era fome de leão. Tomava uma copada enorme de leite e no pãozinho passava pouquinha manteiga. O menino magrelinho tinha muito medo do Colesterol. Seu pai, o Senhor Felizbentino, sempre falava para o menino magrelinho que o Colesterol estava dentro da manteiga e que passar no pãozinho muita manteiga fazia mal a saúde, pois o colesterol matava o coração das pessoas quando elas comiam muita manteiga. Franzolino ouvia o seu pai e não exagerava na manteiga do pãozinho; passava bem pouquinha. Somente uma pontinha de faca era suficiente para lambuzar todo o pãozinho e cuidar de seu precioso coração.

O açúcar era tão gostoso, tão docinho que Franzolino não resistia a tentação; sempre colocava muito açúcar no seu leite; mas um dia o menino magrelinho ficou muito triste e assustado, ele estava chegando em sua casa quando avistou muitas pessoas paradas próximas do portão. Bem na porta de casa estava estacionada uma ambulância. Franzolino se preocupou e quis saber o que estava acontecendo lá dentro de sua casa. Correu bem rápido com suas pernas velozes, chegou à porta de casa todo assustado, sem fôlego e cansado pela corrida Franzolino com os olhos arregalados entrou em casa gritando por sua mãe. _ Mãe! _Mãe!

O menino magrelinho teve muito medo, pensou que aquela ambulância que estava bem de frente a sua casa; estivesse ali para socorrer sua mamãe. A mãe de Franzolino ao ouvir os gritos do filho respondeu de lá de dentro da casa: _Calma Franzolino, mamãe está aqui! O menino aliviado por ouvir a voz de sua mãe entrou em casa para ver o que estava acontecendo.

O vovô Valdemar estava muito doente, e a ambulância estava na porta de Franzolino para cuidar do seu vovozinho. Franzolino olhou para o quarto e viu o vovô sentado na cama, com uma agulha de injeção no braço tomando um soro. Já estava melhorando. Franzolino se sentiu aliviado em ver que o seu avô havia sido socorrido pelos médicos e que estava melhor. O menino chegou pertinho do vovô e lhe perguntou ao ouvido._ Vovozinho o que é que o Senhor tem?

O Senhor Valdemar respondeu: _O vovô está doente porque comeu muito açúcar desde quando era pequenino como você Franzolino. Açúcar demais faz mal para saúde!

O menino magrelinho pegou seu caminhãozinho e foi para o terreiro brincar. Enquanto brincava Franzolino pensava nas palavras de seu avô. Foi assim finalmente que ele entendeu; que mesmo o açúcar sendo tão docinho e gostoso, também era perigoso para a saúde, pois havia deixado o vovô muito doente!

O menininho magrelinho como sempre muito esperto deste dia em diante colocava só um pouquinho de açúcar no leite. Uma colher apenas de era o suficiente para adoçar o leite.

As balas, os doces e todas as outras guloseimas não deixaram de ser apreciadas pelo menino magrelinho, mas ele sempre tomava o cuidado para não exagerar. Comia de tudo! Mas somente um pouquinho de cada doce para não ficar doente como o vovô havia ficado.

Franzolino gostava muito do seu avô, e sempre que ele chegava logo Franzolino percebia, pois vovô de lá do portão arrastava suas chinelas de couro e entrava fazendo um barulhinho para chamar a atenção de seus netos. Todo alegre vovô Valdemar chegava dizendo: _ Rul, Rul! Cadê os meninos dessa casa?

Nesta hora Franzolino e seus irmãos ouvindo o vovô chegar, corriam todos para abraçá-lo. O vovô era sempre bem vindo. O Senhor Valdemar por sua vez trazia na bagagem presentes para todos os netos; e o principal! Muito amor e carinho para todos.

Era sempre muito bom receber a visita do vovô Valdemar. As brincadeiras que ele fazia. As histórias que ele contava. As guloseimas que ele trazia. As vitaminas de abacate, e o bolo de mandioca então; este sim era a especialidade do vovô e o favorito da garotada. Até mesmo o pai de Franzolino não resistia aquele delicioso bolo preparado com tanto carinho pelas mãos do vovô Valdemar. Comiam tudo até o último pedacinho da travessa.

Todo dia Franzolino tomava seu banho; se arrumava e ia para a escola, nunca chegava atrasado. Quando o Senhor Valdemar estava visitando a casa de Franzolino, lembrava o neto da hora do banho. Chamava o netinho dizendo. _ Franzolino vá tomar seu banho para almoçar e ir para a escola! Vou levar você hoje!

O menino magrelinho ia até o quarto pegava a sua roupa de ir para a escola; entrava em um cômodo pequenino construído lá no fundo do quintal onde ele tomava seu banho de lata. Sua mãe esquentava a água do banho em uma lata e colocava lá dentro do pequeno banheiro para que Franzolino tomasse um banho bem quentinho. Com o auxilio de uma garrafa de plástico cortada ao meio, formando um copo; Franzolino jogava lentamente a água em seu corpo. Pegava a bucha e o sabonete e se esfregava, depois se enxaguava com mais umas boas canecas de água morninha; preparada com todo carinho por sua mãe.

Quando o menino magrelinho terminava de se banhar vestia sua roupa ali mesmo no banheiro. Calçava as chinelas bem limpinhas e voltava para dentro de casa. O seu avô com a ajuda de uma escova de mão, arredondada, penteava o cabelo de Franzolino. O deixava mais bonito ainda.

Ter o vovô por perto era muito bom. Os netos sempre gostavam da presença dele. Ele era um Senhor muito amável; de estatura mediana cabelos já esbranquiçados e uma certa barriguinha era o vovô. Não dava uma bronca se quer nos netinhos. Apenas com muito carinho e atenção recebia o respeito e amor de todos os netos.

Franzolino estudava em uma escola bem bonita! Cercada por um muro alto lá dentro estava a escola. Um pátio cheio de arvores grandes de folhas bem verdinhas. Quando chegava o final de ano as árvores cresciam, pois com a chuva que sempre caia, os galhos ganhavam novas folhas e cresciam cada vez mais.

Na entrada da escola havia um portão pequeno. Neste portão sempre estava a tia Zezé uma doce e meiga Senhora que recebia todos os alunos com muito amor e dedicação. Todos os dias de longe Franzolino avistava ao portão a tia Zezé, sempre sorridente esperando todos entrarem na escola. Ela cumprimentava um por um. E algo que o menino magrelinho achava incrível nesta doce Senhora era a sua memória. Ela não esquecia o nome de ninguém. Cumprimentava todo mundo pelo nome. Passava a mão na cabeça de alguns, cumprimentado; e ordenava que entrasse os alunos que ainda estavam de fora da escola conversando.

A escola era muito legal, o menino magrelinho sempre gostou de ir à escola. Somente uma única vez ele chorou por estar na escola. Foi no seu primeiro dia de aula. A mãe de Franzolino o levou para a escola e como já estava com muita pressa; o deixou rapidamente no pátio e partiu. Ele sentiu-se sozinho sem sua mãe, pois ainda não conhecia a escola. Por ser o filho caçula Franzolino começou a estudar bem depois de seus irmãos, e com isso não tinha companhia de nenhum deles para ir a escola. Todos os seus irmãos estudavam em outra escola. Somente o menino magrelinho estudava ali.

No seu primeiro dia na escola Franzolino teve muito medo. Ele sentiu solidão, saudades de casa. Esperou o sinal bater. Quando ouviu o sinal da escola bater o menino magrelinho sentiu mais medo ainda da escola. Arregalou os olhos e ficou num cantinho do pátio tentando se esconder; bem quietinho com seu caderno e o lápis na mão. Uma professora olhou para ele e foi até lá. Chamou o menino magrelinho para entrar na sala de aula; ele por sua vez, ainda muito assustado não queria entrar na sala. A professora insistiu e o levou para dentro da sala de aula.

Quando ele entrou na sala viu todos os seus novos coleguinhas já sentados olhavam para ele que entrava. Franzolino sentiu muita vergonha de todos ali presentes. Sentou-se na segunda cadeira perto da porta colocou o caderno no colo, o lápis na mesa e ficou olhando para o quadro negro.

A professora então fechou a porta; neste momento Franzolino se desesperou, ao ver a porta fechada achou que nunca mais ele iria sair de dentro da sala de aula. Ficaria preso ali para sempre. Desesperado o menino magrelinho começou a chorar e chamar por sua mãe.

A professora se levantou de sua cadeira veio na direção de Franzolino e o levou para fora da sala. Quando chegou ao corredor encontraram uma Senhora baixinha, gordinha, de olhos pretos e cabelos bem curtinhos tinha uma voz bem mansinha. Transmitia paz quando falava. Ela começou a falar com Franzolino:

_Ola rapazinho! Seja bem vindo a nossa escola. Meu nome é tia Irene. Qual é o seu?

O menino magrelinho envergonhado, assustado e receoso em dizer seu nome, falou bem baixinho:

_Meu nome é Franzolino. Eu quero a minha mãe.

Tia Irene calma e serena pegou na pequenina mão de Franzolino e o levou para outra sala onde os dois conversaram muito. Tia Irene lhe mostrou livros, lhe contou histórias, mostrou fotografias da escola.

Franzolino criou coragem e também contou a tia Irene suas histórias; lhe contou sobre sua família, falou sobre o vovô, a mamãe, o papai e seus irmãos. Contou também sobre os seus brinquedos e sobre sua cachorrinha que se chamava Psilone. A cachorrinha era de cor marrom escuro, bem pequena e sapeca balançava o rabicó toda feliz quando via Franzolino chegar em casa.

Tia Irene lhe explicou cada detalhe da escola. Disse a ele que não precisava ter medo, pois a escola era o melhor lugar do mundo, na escola Franzolino iria aprender tudo que precisava.

Franzolino ouviu atentamente toda a explicação de tia Irene e resolveu voltar para a sala de aula. Deste dia em diante o menino magrelinho nunca mais teve medo da escola, entendeu que ali todos eram amigos e que as professoras não iriam prender ele para sempre dentro da sala de aula.

Franzolino hoje não sente medo da escola, pelo contrário ele adora ir à escola; ver seus amigos e seus professores. Tornou-se amigo de todos ali, todo mundo gosta muito do menino magrelinho que sempre esta sorridente, correndo de um lado pro outro no pátio ele se diverte na hora do recreio.

Certo dia enquanto voltava da escola Franzolino soltou da mão de sua mãe e correu em direção a rua para pegar uma pipa que estava caindo. Naquele dia tinham tantas pipas lá no céu e justo naquela hora uma caiu bem perto da escola. O menino magrelinho muito veloz, com suas pernas magrinhas, correu atrás da pipa. Precisava alcançá-la. Não se lembrava de mais nada naquele momento, apenas corria na rua da escola olhando para o céu. Quando ouviu sua mãe desesperada gritar: _ Olha o carro Franzolino! Cuidado!

Depois destas palavras o menino magrelinho só sentiu a pancada do carro em seu corpo. Foi atropelado na rua. Não viu mais nada desmaiou. Quando acordou Franzolino estava em uma cama alta, com lençóis azuis, um soro na veia, ligado por vários fios a diversos aparelhos, vestindo um pijama diferente do seu; estava em um hospital cercado por pessoas estranhas. Chamou por sua mãe, mas não ouviu resposta. Ela não estava ali. Quis descer da cama que estava deitado, mas não conseguia sua perna direita não estava mais com ele. No acidente Franzolino perdeu sua perna veloz. De agora em diante o menino magrelinho teria de se adaptar com uma perna de metal. Adaptou-se. Voltou à escola no ano seguinte.

Neste ano a escola ganhou muitos novos alunos e Franzolino aumentou muito o seu numero de amigos. Já não era mais o menino mais veloz da escola, pois tinha amputado sua perna, mas ainda brincava com seus colegas da escola. Agora ele tinha suas limitações, mas ainda sonhava em ser um grande rei. Precisava aprender tudo na escola para um dia se tornar um rei. Continuou estudando.

Em sua sala de aula entraram mais sete alunos novatos. Um destes alunos é o Max, ele é o mais alto e mais forte menino da escola. Tem um temperamento estranho, ele grita com os colegas fala palavras feias e está sempre mal humorado. Ninguém entende por que. Ele olha para a perna mecânica de Franzolino e faz cara de desleixo, não quis amizade com o menino magrelinho. Não dá a mínima atenção a ele. Nenhum aluno da sala entende porquê o Max age daquela maneira tão estranha com Franzolino.

O Max mal chegou à escola e já esta dando trabalho para as professoras. Elas já mandaram chamar a mãe dele para uma conversa na sala da diretora. Mas não resolveu.

E para piorar a situação Max agora começou a implicar com o Franzolino. Fala coisas desagradáveis para ele. Ri de sua perna mecânica. Faz piadinhas de mau gosto, caçoa de Franzolino; logo ele que nunca falou nada para ofender ninguém, agora tem que ouvir o Max falar coisas desagradáveis para ele. Uma grande injustiça. Quando bate o sinal do recreio o menino magrelinho sai da sala andando com dificuldade devido à perna mecânica, mas o Max não se importa com as limitações de Franzolino; passa correndo e o empurra; ele quase cai ao chão, por sorte, seus amigos sempre por perto, o ajuda a se equilibrar. Mas o Max não o respeita ninguém.

Todos os dias quase derruba Franzolino na saída pro recreio. Uma verdadeira covardia, pois ele sabe que Franzolino é magrelinho e tem dificuldade para se equilibrar em sua perna mecânica. De vez em quando Franzolino perde a paciência e fala para o Max.

_ Não adianta você tentar me derrubar Max, pois vou me levantar com ajuda dos meus amigos!

Falando assim Franzolino abaixa a cabeça e sai entristecido com a atitude boba do Max. Ninguém na escola aprova o comportamento agressivo do valentão sem noção. Ele coloca apelido nas pessoas e tenta humilhar todos com suas brincadeiras de mau gosto. Apronta para cima das pessoas e sai correndo pelos corredores dando muitas gargalhadas tentando aparecer com suas maldades.

O Max apelidou a Flavia, uma grande amiga de Franzolino, ela chorou muito. Chorou tanto que Franzolino sentiu pena de sua amiga e foi falar com o Max. O valentão não quis ouvir o menino magrelinho e lhe deu um empurrão, Franzolino se desequilibrou em sua perna mecânica e caiu no chão.

Max ao vê-lo caído completou sua maldade e lhe apelidou de caveira; deu uma gargalhada bem alta e saiu correndo para o pátio. Todos os alunos que presenciaram a atitude do Max; sentiu muita raiva de ver que ele não se importa com os seus colegas e que fica o tempo todo magoando as pessoas, colocando apelido nelas pela sua aparência física ou qualquer outra bobagem destas.

O que ele acabou de fazer com Franzolino não tinha perdão, ele havia derrubado e chamado de caveira o menino mais legal de toda a escola. Todos ficaram muito chateados olhando o menino magrelinho caído no chão, entristecido e envergonhado. Franzolino não procurou briga com o Max, queria apenas que ele parasse de magoar as pessoas daquela maneira.

O menino magrelinho caído ao chão olhou para um lado viu muita gente, olhou para o outro e viu mais gente ainda; ele estava caído no chão cercado por seus colegas da escola. Franzolino se sentiu triste e humilhado. Ser chamado pelo Max de caveira e derrubado na frente de todo mundo, era muita humilhação. Envergonhado pela queda, triste por não ter mais sua perna e por ser tão magro; Franzolino com dificuldade se levantou, tirou a poeira da roupa olhou para todos e quando ia abaixando a cabeça para sair do meio de tanta gente, ouviu os seus amigos gritarem em corro se aproximando dele.

_Rei Caveira! Rei Caveira! Rei Caveira!

Todos os seus amigos gritavam bem alto, e sorriam docemente para Franzolino. Olhavam-lhe com olhos de ternura, aproximavam-se. O menino magrelinho sem entender direito o que estava acontecendo, viu os seus colegas se aproximarem cada vez mais, e o colar nos ombros. Ele agora era o rei de seus amigos, era o rei da escola. Todos se juntaram e carregaram Franzolino pela escola toda como um verdadeiro rei. Lá no alto estava o menino magrelinho sendo carregado por seus colegas e exaltado como um grande rei. Ganhou sua corroa tão sonhada, se tornou um rei de verdade. Por onde passavam os outros alunos lhe seguiam e gritavam em coro!

_ Viva nosso Rei! Viva o Rei Caveira! Viva nosso Rei! Viva o Rei caveira!

Andaram por todo o pátio exaltando a bondade e a humildade de Franzolino que tentava defender sua amiga quando foi humilhado e derrubado por Max . Em toda escola se ouvia. _Ele é demais! Ele é legal! Ele é nosso Rei! Rei Caveira! Rei Caveira! Rei Caveira!

Todos os alunos da escola sabiam que as atitudes do Max não eram bem vindas, pois as pessoas não devem ser julgadas por suas aparências físicas e sim por seus corações.

Foi assim que o menino magrelinho ganhou o seu trono na escola. Com seu bondoso coração, sua humildade, simplicidade; calma e inteligência Franzolino se levantou da queda muito mais forte ainda. Ele com seu enorme coração fez grandes amigos por ali, desde quando começou a estudar na escola. E o valentão do Max só conseguiu fazer com que as pessoas se afastassem dele. Seus preconceitos e sua arrogância lhe fez ficar sozinho, sem amigos, sem ninguém agora estava o Max.

Ao ver Franzolino passar carregado por seus amigos e festejado como o Rei Caveira; Max percebeu a bobagem que havia feito. Na tentativa de humilhar o menino magrelinho ele simplesmente proporcionou a Franzolino a chance de se tornar o Rei Caveira! O Rei da escola. O menino magrelinho mais querido de toda a escola. Todos, até mesmo os poucos amigos que Max tinha conquistado com suas maldades, o deixaram de lado. Todos o abandonaram ninguém mais ria de suas maldades. Ele não era mais visto por ninguém na escola. Ficou isolado. Todos ali passaram a valorizar o amor a amizade e o coração das pessoas, independente de sua aparência física, ou de sua casa, roupa, ou pertences. O que valia era o coração de cada um.

Quando batia o sinal da escola para a hora do recreio Max já nem saia mais da sala. Ficava por ali sentado calado sem ninguém; todos iam brincar se divertir enquanto ele solitário pensativo ficava sentado em sua cadeira. Sozinho na sala de aula. Franzolino da janela observava todos os dias à tristeza do Max que ficou sem amigos porque não era um menino legal com os outros.

Certo dia Franzolino com seu bondoso coração, sentido pena do Max. Entrou dentro da sala na hora do recreio e foi conversar com ele. Max ali sozinho de cabeça baixa viu Franzolino se aproximar vagarosamente, com um sorriso nos lábios o menino magrelinho começou a conversar com o solitário menino. O Rei Caveira depois deste dia tornou-se o grande conselheiro de Max. Franzolino o ensinou a tratar melhor as pessoas; contou a ele tudo sobre sua vida. Falou de simplicidade, felicidade, amor, paz, e fraternidade.

Max gostou muito das palavras de Franzolino, ele era o seu único amigo em toda a escola, apenas o menino magrelinho da perna mecânica se importava com o Max. Max por sua vez ouvia atentamente e aprendia a ser uma pessoa melhor a cada dia. Aprendeu palavras novas como: por favor, obrigada, licença, me desculpe. Max aprendeu muito durante este ano na escola e com ajuda de Franzolino fez alguns amigos. Não está mais tão sozinho. Voltou a ter com quem brincar na hora do recreio e já não fica mais solitário dentro da sala de aula. Max aprendeu a ser uma pessoa agradável, aprendeu a amar as pessoas, a fazer brincadeiras saudáveis, se tornou agradável, aprendeu a respeitar os outros.

Até hoje na escola reina o amor; a paz; a sabedoria e a bondade! Até hoje no coração de todas as crianças da escola reina o Rei Caveira! Franzolino, o menino magrelinho, se tornou um grande rei, como sonhava, admirado em toda escola. Se tornou o Rei Caveira! Por ter um bondoso coração e ser ninguém mais ninguém menos que! O Menino Magrelinho!

Livro 01. Ano 1995
UM SAPO MUITO LOUCO

Autor:

J. S. Alfredo
OU
Baka Marthys
Ou simplesmente o meu nome verdadeiro, Luciene Rroques.







Tremendão era o mais belo e esperto sapinho entre os mais de oitenta sapos que nasceram lá na beira do brejo, próximo à cidade de Sapotopolis. Sapotópolis ficava bem no meio de uma bela e enorme lagoa de águas bem limpas. Os pais de Tremendão não tinham dinheiro para se mudar, por isso moravam ali mesmo, na beira do brejo, afastados da grande cidade. Afastados de Sapotópolis.

Tremendão de longe via a cidade. A cada dia que crescia, aumentava o seu desejo de se mudar para Sapotopolis. Passou-se um tempo e Tremendão tornou-se: o sapo! O sapo mais belo de todos! Usava camisa de seda e anéis de ouro nos dedos. Seu cabelo era aparado pelo melhor cabeleireiro, o Senhor Gafanhotino. Tremendão era um sapo muito querido por seus amigos e familiares. Mesmo assim, ainda era pouco para aquele belo sapo. Ele queria sempre mais! Muito mais! Ele queria Sa-po-tó-polis!!!

Quando ainda era um mero girino, Tremendão já se destacava. Envolto em seu cordão de geléia fecunda, Tremendão já sonhava com a liberdade! Ele era o sapo maioral daquela beira de brejo! Os outros sapos nascidos do mesmo cordão, não abrilhantavam tanto quanto Tremendão. O tempo foi passando e Tremendão ganhou a liberdade. Abandonou finalmente aquele cordão gelatinoso, que o mantinha no brejo, afastado da grande lagoa.

Tremendão queria ser o sapo estrela de Sapotopolis! Se estudasse com toda certeza, se tornaria o maior e melhor cientista, que Sapotópolis já viu. Tremendão sentiu que estava pronto para ganhar a grande lagoa. Chegou o grande dia. Tremendão já era o sapo livre. Não moraria nunca mais naquele brejo horrível, pois era loucura morar naquela casinha tão simples. Pensava Tremendão. Tremendão queria muito mais! Viver a beira brejo, era ser muito louco, não era o desejo de seu coração. Deseja ser rico. Sapo rico.

Se fosse embora, em pouco tempo teria sua própria casa de sapo no centro da lagoa. Porem antes de sua partida, o pai deu-lhe algum dinheiro e sugeriu que o filho estudasse em Sapotópolis. Se tornasse um grande cientista! Tremendão pegou o dinheiro; mas achou uma grande perda de tempo, dedicar-se a coisas tão difíceis de fazer como estudar. Aquilo tudo que o pai lhe falou era pura bobagem. Coisa de pai que não tem o que falar. Era melhor ir embora mesmo. Já era crescidinho podia se virar em Sapotopolis.

Partiu finalmente da beira do brejo, sem aumenos se despedir de seus pais e seus irmãos. Todos preocupados com sua partida, acenavam um triste adeus para Tremendão. Dona Sapomadre ficou a porta da humilde casa do brejo. Chorando pela partida de seu filho querido. O mais esperto de todos os seus sapinhos, estava deixando a beira do brejo. Chorando a pobre mãe enxugava as lágrimas, acenando para o filho que ia embora, ganhando a grande lagoa.

Tremendão quando chegou ao Lagos Shopping, encontrou muita gente nova. Com o dinheiro que o pai havia lhe dado, logo fez amigos. Pagou taças de sorvetes, para todos os sapos que estavam por ali. Em pouco tempo tornou-se o sapo mais popular de Sapotópolis. Todos os jovens sapotopolienses, adoraram o novo amigo. Tremendão era sapo. O Sapo! Um sapo muito! Muito! Muito louco! Muito Popular! Ficando sem dinheiro, foi procurar trabalho certa vez, como não havia aprendido nenhuma profissão, não encontrou nada que conseguisse fazer direito. Tremendão não sabia fazer nada! Não trabalhava e o dinheiro que o pai lhe deu já havia acabado.

Arranjou um jeito de sobreviver. Tocava até viola de sapo cego pra ganhar algum trocado! Na divisão dos lucros da cantoria, dava ao Sapo Cego apenas sementes de abóboras de brejo. Como as sementes eram redondas, parecidas com as moedas, o Sapo Cego nem percebia a trapaça de Tremendão. O ajudante de cego tocador de viola, Tremendão, catava para si todas as moedas que o Sapo Cego recebia. Quando sentia fome, com tais moedas de esmola, comprava asas de mosca para tapear a fome. As moedas roubadas de Sapo Cego logo acabavam. A fome novamente aparecia, Tremendão ia até ao restaurante, pedia um prato de sopa de abóbora. Quando finalmente chegava sua sopa. Sentia o seu cheiro! “- Uh que delicia de sopa!” Tremendão cruzava os braços e ficava a espera que uma mosca assentasse em sua sopa de abóbora. Não poderia se atrever a comer aquela deliciosa sopa e sair sem pagar. Ficava esperando pela mosca um bom tempo.

Quando a mosca aparecia e assentava no prato de sopa, Tremendão projetava a sua grande língua de sapo, apanhava a mosca da sopa e a engolia de uma vez! Levantava-se da mesa para ir embora. O garçom gentilmente cobrava o prato de sopa. Tremendão irritado com o garçom; devolvia-lhe o prato cheio de sopa fria. Dizendo ao garçom que não pagaria nada da sopa, pois não comeu nenhuma gota de sopa. Estava totalmente cheio o prato, da mesma forma que havia recebido. O garçom olhava para o prato, ainda cheio da deliciosa sopa, agora já fria. Respondia à Tremendão, que estava tudo bem! Que não precisaria pagar pela sopa, uma vez que não havia comido. Tremendão ia embora sorrindo, levando em sua pança, a mosca regada ao molho de sopa de abóbora. Mosca lambuzada de abobora já servia pra tapear a fome.

Certo dia! Vendo a situação apertar mais ainda para o seu lado, Tremendão decidiu que precisava enriquecer a qualquer custo. Ficar vivendo daquela maneira era loucura. Os amigos já estavam ficando poucos! O dinheiro havia acabado. Teria de ficar rico imediatamente ou perderia até mesmo a sua namorada; a Sapafarsa, a bela sapa que namorava Tremendão; vestia-se muito bem, andava de salto alto, toda enfeitada de jóias. Muitos anéis, pulseiras, colares e brincos de ouro. Morava na melhor casa de sapo em Sapotópolis. Andava somente de carro e ia ao Lagos Shopping todos os dias. A sapa, pela qual Tremendão estava encantado, conhecia boa parte da sapaiada de Sapotópolis. Tremendão logo fez novas amizades que a namorada lhe apresentou. Tornou-se finalmente amigo de Saporato, este sapo era o único que conhecia a forma de enriquecer da noite para o dia sem muito esforço, nem trabalho. Era loucura seguir os conselhos que o pai lhe dera quando saiu do brejo. Era mais fácil ouvir a formula que Saporato tinha na manga. Saporato sabia como enriquecer de outra forma. Como Saporato era um sapo descolado, conhecia bem toda a cidade de Sapotópolis, tornaram-se grandes amigos. Tremendão passou a andar sempre junto com aqueles novos amigos.

Passou-se algum tempo e Tremendão mesmo ganhando dinheiro e enriquecendo cada vez mais, foi perdendo os amigos antigos. Os sapos se afastavam de Tremendão, pois estar perto dele significava uma bela encrenca a qualquer momento. O mais seguro era se afastarem. Todos aos poucos iam deixando de tomar sorvete em sua companhia. Tremendão ficava a cada dia mais sozinho, mais rico, mais sozinho, mais rico de solidão. Pobre Tremendão, se tornou em pouco tempo o sapo mais rico e poderoso de toda Sapotópolis. Nem mesmo Saporato era mais rico que Tremendão, pois ele comprou o maior cofre da cidade. Pertencia a Tremendão o maior cofre da cidade! Com tanto dinheiro, poderia ter muitos amigos. Comprar muitos sorvetes. Mas agora, já não tinha tantos amigos assim. Ele tinha somente alguns poucos novos amigos que Saporato lhe apresentou. Em alguns meses Tremendão realizou seus sonhos, comprou de tudo que queria e finalmente Sapafarsa aceitou casar-se com Tremendão.

Tremendão e Sapafarsa casaram-se em uma grande festa. Um enorme salão de festas. Com muita comida, muita bebida, mas apenas cinco convidados. Convidou todos os seus amigos que tinha. Todos os cincos vieram.

Em sua festa de casamento havia no total oito sapos! Tremendão e sua esposa Sapafarsa, Sapopadre que celebrou a cerimônia de casamento, e os seus amigos Saporato e sua turma; Sapobacana, Sapotrapaça, Sapodescolado e Sapogato. O sapo de beira de brejo, Tremendão, já nem se lembrava mais de suas origens. Esqueceu-se de seu endereço na beira do brejo. Não convidou ninguém de lá para a sua grande festa de casamento. Havia se esquecido de seu passado humilde, não se lembrava mais de sua família, vivia para seus novos amigos e para Sapafarsa. Nunca mais voltou a beira do brejo. Nem mesmo tocou a viola do Sapo Cego, que ele via ao passar em seu carro, acompanhado por Sapafarsa. O cego ultimamente todo tristonho, cantando na praça da grande cidade, procurava em vão ouvir a voz de Tremendão. Agora era sapo rico, Tremendão não precisava de ninguém. Muito menos de esmola de sapo cego!

Chegou o inverno e começou a grande chuva, que a cada dia inundava ainda mais. A lagoa estava tão cheia de água, que os sapos de Sapotópolis começaram a ficar com medo. Saporato e seus amigos foram os primeiros a fugir da cidade, que estava em alerta total. Todos se escondiam em suas casas de sapo. Estavam muito preocupados. Sapafarsa agiu logo, pegou sua grande bolsa e encheu de dinheiro. Em suas malas colocou todos os seus pertences. Escondeu tudo no porta malas, do carro de Tremendão. Na madrugada a chuva aumentou muito e os sapos todos apavorados não sabiam para onde correr. Tremendão procurou por sua esposa a Sapafarsa e por seu carro; mas ela já havia ido embora. Sem que ele percebesse, Sapafarsa saiu pé por pé, entrou no carro e desapareceu. Tremendão estava sozinho, Sapafarsa o abandonou. Foi embora sem aumenos lhe dizer um adeus!

Tremendão apavorado se viu rico e sozinho. A sua casa estava vazia. Nem mesmo sua esposa e os amigos estavam do seu lado. Todos o abandonaram! Tremendão abraçou o seu cofre, e no meio daquela tempestade ficou segurando a rua riqueza. Com a chuva tão intensa a represa não suportou e estourou! A água vazou por toda parte. Sapotópolis sumiu do mapa! Sapotópolis desapareceu para sempre. A cidade foi totalmente destruída! Não restou nada; nem ninguém em Sapotopolis! Tremendão ao abrir os olhos se viu totalmente sozinho, no meio do nada, abraçado ao seu enorme cofre, onde guardava toda a sua riqueza.

Cercado por pura lama no meio do deserto que se tornou a antiga lagoa. Tremendão lembrou-se finalmente de sua origem humilde. Tremendão lembrou-se da beira do brejo! Lembrou-se de sua família, lembrou até mesmo de Sapo Cego, o sapo tocador de viola. Sapo a quem ele por vezes enganou, dando-lhe apenas sementes de aboboras; ao invés de dividir com Sapo Cego as moedas que recebiam. Tocava viola com Sapo Cego e pegava todo o dinheiro para si. Nesta hora, se vendo em meio a tempestade, veio o arrependimento! Pobrezinho daquele sapo. Pode ter morrido de fome, por falta de moedas. Ou pode ter morrido nessa tempestade. Sentiu remorso por dar ao Sapo Cego, apenas sementes de aboboras. Tremendão encheu os olhos de água. Abraçado ao seu grande cofre de riquezas, Tremendão gritava por socorro! Ninguém lhe escutava, todos haviam sumido de Sapotópolis, que já nem existia mais!

O sapo sozinho e desesperado, sem saber o que fazer da vida; tentou ir embora carregando o seu enorme cofre de riquezas. Quando ergueu aquele grande cofre pesado, Tremendão ouviu o estalo em suas costas. Sua coluna dorsal não suportou o peso do cofre e se partiu em três pedaços. Suas pernas bambearam e Tremendão caiu ao chão. Não poderia andar, correr, pular como fazem os sapos, nunca mais poderia! Chorou sentido, o pobre sapo rico! Sabendo que não poderia ir pulando para a casa de seus pais, Tremendão sentiu que ia morrer ali mesmo. Não havia ninguém para lhe salvar. Ele morreria ali sozinho, ao lado de sua riqueza. Em prantos o sapo lembrou-se das músicas que cantava com Sapo Cego, quando ainda precisava de suas esmolas. Gritou por socorro mais uma vez, ninguém o ouviu.

Esperando a morte chegar, o sapo ao lado de sua riqueza, lembrando-se das músicas de Sapo Cego; começou a cantar. Catava bem alto as velhas músicas de Sapo Cego. Chorando e cantando ao mesmo tempo, Tremendão esperava a morte chegar. Caído ao chão cantava se despedindo do mundo, se despedindo da vida. Arrependendo-se de tantas coisas erradas que já havia feito. Tremendão sentia a mais forte dor de seu coração. Sentia que sua riqueza não podia lhe ajudar. Tudo que possuía, de nada lhe valia, naquela triste hora! Continuou cantando o seu canto de morte. Lembrando-se das velhas músicas de Sapo Cego, ele cantava cada vez mais alto, uma triste história de sapo, esperando a morte chegar.

Em alguns instantes ouviu uma voz, que vinha de lá do outro lado, de seu enorme cofre. A voz lhe ajudava a cantar. Olhou em direção ao barulho, logo viu surgir de detrás do cofre, o Sapo Cego! Ficou imensamente feliz ao ver Sapo Cego. Finalmente havia encontrado ajuda! Tremendão pediu a Sapo Cego que lhe retirasse dali, pois o chão estava com muita lama e frio. Seu corpo já estava congelando, naquela lama toda. Sentia saudades da beira do brejo naquela hora, ofereceu ao Sapo Cego todo o seu cofre cheio de riquezas em troca da ajuda. Sapo Cego se pôs a ajudar Tremendão. Colocando-lhe sobre as suas próprias costas; Sapo Cego lhe respondeu que não precisava de riquezas. Dispensou toda riqueza de Tremendão. Tinha sua preciosa família, e sua companheira viola velha. Tudo que já tinha lhe bastava! No caminho para o brejo, Sapo Cego lhe explicou porque não precisava daquele cofre cheio de riqueza:

-Tremendão eu vou levá-lo para minha casa! É lá na beira do brejo, é casa simples, mas lá não falta nada! Ao longo de anos conseguimos tudo que precisávamos. Eu e meus irmãos juntamente com meus pais, construímos lá no brejo uma enorme fazenda de abóboras. Plantamos todas as sementes que eu ganhava de esmola! É uma bela fazenda a nossa. Vendemos muitas abóboras todo mês. Já estamos até exportando abóboras! É um ótimo negócio. Você terá sopa quente de abóbora fresquinha, apanhada no pé. Ainda hoje, minha mãe lhe fará um delicioso prato! Apresentarei-lhe toda a minha família. Somos mais de oitenta irmãos e juntando todos da família, passa dos cem sapos. Somos sapunidos! Somos felizes!

Em alguns instantes de caminhada nas costas de Sapo Cego, Tremendão começou a ouvir uma enorme cantoria de sapos. Vindo lá da beira do brejo. Sapo Cego apertou o passo em direção a cantoria! Tremendão olhou admirado para a beira do brejo, haviam muito mais de cem sapos, cantarolando guiavam o Sapo Cego e lhe esperava chegar. Todos estavam muito contentes e felizes! Tremendão olhou para os lados e viu a enorme fazenda de aboboras que a família de Sapo Cego fez com as sementes que ele próprio lhe dava enquanto o trapaceava. Tremendão nunca esteve diante, de tamanha saparia reunida por puro amor familiar! Tremendão lembrou-se de seus irmãos e seus pais. Arrependia-se profundamente por ter sido egoísta e inconseqüente. Desejou muito poder apagar tudo que fez de errado. Queria ter uma família também.

Recordou-se dos amigos da turma de Saporato. Pensou em Sapafarsa, que não lhe deu nenhum filho. Nenhuma família, nada, ninguém. Realmente, agora ficava bem claro, ele não tinha nada. Lembrou-se de seu grande cofre cheio de riquezas e percebeu o quanto era pobre! Nunca teve nada! Nunca teve família, nem amigos, nunca teve amor verdadeiro. Sapo Cego tinha tudo! Sapo Cego sim: era o sapo mais rico, de todo mundo! Não apenas de Sapotópolis ou do brejo, mas de todo o mundo! Sapo Cego tinha família, tinha amor e uma enorme fazenda de aboboras. Toda plantada com a ajuda da família. Todos se amavam muito por ali. Sapo cego com toda certeza, era sapo rico.

Todos os sapos cantando, dançando e felizes, vieram receber Sapo Cego e Tremendão. Tremendão começou a chorar, sentindo saudades de seus pais e seus irmãos. Nem se lembrava mais de como eram, já havia passado um bom tempo sem vê-los. Queria muito reencontrar sua família e se tornar um sapo rico de verdade. Precisava conhecer seus irmãos, voltar para sua família à beira do brejo. Todos os sapos ajudaram o Sapo Cego a carregar para dentro de casa, o ilustre visitante Tremendão. O colocaram em uma cadeira confortável. Limparam-lhe toda a lama, lhe vestiram roupa limpa. Trouxeram-lhe uma caneca, cheia de deliciosa água fresquinha.

Sapo Cego finalmente chamou por sua mãe:- mãe traga um prato de sopa fresca, temos visita; pai venha conhecer o amigo que ajudei hoje! Em instantes surgiu a velha Senhora sapa, com o prato de sopa na mão, acompanhada pelo Senhor Sapopai. Ao ver aqueles Senhores ali em sua frente, Tremendão encheu o seu peito de alegria. Finalmente estava em casa! Era a Dona Sapomadre, sua própria mãe e seu Sapopai! Aquela grande família era a sua família! Aquela sapaiada toda, era seus irmãos, seus sobrinhos e seus pais! Tremendão era só felicidade! Estava finalmente em sua verdadeira casa de sapo. Sapo Cego também era seu irmão!

Sapo Cego abraçou Tremendão juntamente com seus pais. Tremendão ouviu toda explicação de seu pai, chorando Tremendão pediu desculpas ao seu irmão Sapo Cego, que ia até a cidade todos os dia, para lhe ajudar com suas moedas de esmolas; e não deixar Tremendão passar fome! Todos se reuniam a volta de Tremendão, lhe deram o grande abraço de sapos. Muitos sapos! Foi um verdadeiro Sapabraço! Como manda a boa educação, a família toda se apresentou um a um. Os filhos de Sapo Cego deram as boas vindas ao tio Tremendão. Era uma verdadeira sapalegria! Tremendão estava de volta a sua família. Mais rico do que nunca! Mais feliz que nunca! Não morreria mais sozinho no meio da lagoa seca. Tremendão era um sapo rico agora! Tinha para mais de cem sapamores verdadeiros! Não caberia em seu grande cofre, toda aquela riqueza que acabava de encontrar. Era muito! Muito amor por toda parte!

A noite veio chegando, a sapaiada se organizou. Colheram setenta e sete grandes e abóboras fresquinhas. Sapomadre fez uma gigantesca panela de sopa deliciosa! Sapo Cego pegou sua viola e a festança começou. Foi uma noite de pura alegria e muita comilança de sopa de abóboras. Sentado em sua cadeira, agora para sempre sua companheira inseparável; lá estava Tremendão. Amparado por seus pais que sentaram ao seu lado. Segurando a mão de seu pai e de sua mãe, Tremendão passou a noite vendo todos dançando e cantando. Todos festejam o amor por Tremendão! Todos lhe amavam demais!

Depois daquela noite, a beira do brejo mudou muito, as estrelas lá no céu iluminam muito mais que antes! A lua sempre aparece feliz e sorridente em todas as noites de festa a beira do brejo! De longe se pode escutar a sapaiada, sapacantando, sapadançando a noite toda, festejando o sapamor verdadeiro. Tremendão aprendeu a dançar e cantar belas sapomúsicas. Tremendão todas as noites dança loucamente, feliz e contente, ele mostra seus dentes. Com as mãos sobre as duas rodas, Tremendão é o sapo!!! Dançando com toda a sapaiada ele gira velozmente sua cadeira, dando loucos rodopios no meio do salão, contente como nunca vive Tremendão. Ele sempre faz a festa. Em sua cadeira de rodas sapagitando, rodopiando, sapadançando a noite toda, com seus irmãos. Tremendão realmente, é um sapo muito louco! 
 
(Se você leu com a alma e não com os olhos; e chegou até aqui, parabéns ,continue assim! Pois um pais não se faz somente de homens e livros, mas principalmente, de homens que lêem um livro até o seu final.) 
(Luciene Rroques 2001)                  
Um grande abraço a todos!                                                                            
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